Tudo começou
com a popularização da internet. Em 1998, um adolescente e seus
amigos decidiram montar um site que tinha como título “Alucinados”,
e ele abriu espaço na página para que sua mãe publicasse,
despretensiosamente, alguns poemas. A poeta era Soraia Maria, como
gosta de ser conhecida no meio artístico. Mas o que era um ato
tímido acabou tomando maiores dimensões. Soraia foi convidada a
fazer parte da Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL), pela
presidente da sociedade, Maria Inês Simões. “Escrevo desde criança.
Sempre escrevi. Depois que comecei a publicar meus poemas no site do
meu filho, comecei também a receber convites. A presidente da AVBL
entrou em contato comigo virtualmente, e eu aceitei participar”,
conta.
Segundo Soraia,
atualmente a AVBL possui cerca de 400 membros. “E tem muita gente
esperando para entrar”, comenta. Além de participar da academia, a
poeta também participa de alguns grupos de discussão sobre poesia e
literatura. “Esses grupos costumam ter estatutos com regras que
precisam ser seguidas, e no mais é livre, os contatos são livres.
Por exemplo, alguns proíbem totalmente qualquer forma de preconceito
e também pornografia. Quem envia esse tipo de coisa acaba sendo
punido até mesmo com a expulsão”, explica.
Solidão
intelectual
A AVBL publicou no ano
passado sua primeira antologia poética, da qual Soraia participou
com alguns poemas. No total, foram 118 participantes, de 16 países
de quatro continentes. Todos eles, poetas do mundo virtual, o que,
para Soraia, acaba sendo uma porta. “Sem dúvida a internet é uma
porta que abre para os dois lados. O mundo tem acesso ao que eu
tenho para mostrar e eu tenho acesso ao mundo”, comenta. “Gosto do
mundo virtual porque nele muita gente lê e dá retorno. Costumo
receber mensagens de pessoas de vários lugares do mundo, muitos
deles que eu nem conheço, que leram meus poemas e gostaram”,
completa.
Para Soraia — que além de
participar da antologia possui dois e-books — publicar livros não é
seu sonho. “Gosto mesmo é do mundo virtual. Não tenho a vaidade de
ter livros no papel”, ressalta. Além de possuir um site de
literatura na internet (www.soraiamaria.avbl.com.br) e fazer parte
da AVBL, a poeta também escreve textos acadêmicos nas áreas de
psicologia e psicopedagogia, e contos. “Demorei muito para aceitar,
mas hoje sei que tenho facilidade para escrever qualquer tipo de
texto”, afirma.
A poeta também acredita
que a internet proporciona a criação de redes de relacionamentos
capazes de discutir temas afins. “Acho que todo escritor gosta um
pouco de ficar sozinho, de ter seus momentos de solidão. Mas não é
uma solidão no sentido melancólico. A única solidão que eu sinto é a
solidão intelectual, que é a falta de alguém para discutir, por
exemplo, literatura. Por isso acredito que a internet acaba abrindo
possibilidades de minorar esse tipo de solidão”, diz Soraia.
Tecnopoesia
Uma das lutas da AVBL é
pela criação de uma outra escola literária, uma escola mais
contemporânea: o virtualismo. “Para criar uma nova escola literária,
ela precisa ter elementos das escolas anteriores e algum elemento
novo. O virtualismo possui elementos de todas as escolas anteriores
e também a tecnologia, como algo novo, moderno”, argumenta. “E tem
muita gente trabalhando no mundo todo pela criação desta escola”,
acrescenta.
A história da literatura
mundial, de tempos em tempos, foi marcada pelo surgimento de novas
escolas literárias: classicismo, romantismo, realismo, modernismo...
O que os participantes do movimento do virtualismo propõem é o uso
da tecnologia como elemento novo de confecção literária. O marco do
movimento no Brasil é o site http://www.virtualismo.com.br/, que se pretende
uma escola de autores, escritores e poetas virtuais.