Com o livro debaixo do braço e o sonho de ver
sua obra publicada, muitos escritores saem todos os dias
batendo de porta em porta, de editora em editora, na
esperança de lançar seus primeiros ensaios, poesias,
romances ou contos. A rotina é cansativa e, na maioria
das vezes, frustrante. Há quem recorra às suas economias
e pague do próprio bolso a publicação. Porém, além de
dispendioso, a peregrinação quase nunca leva o autor à
tão desejada projeção. Diante de um mercado editorial
fechado, surgiu, então, a alternativa das editoras
virtuais. Com o advento da Internet tornou-se muito
mais fácil entrar para o mundo das letras. Escritores
desconhecidos ou inéditos que foram 'barrados' nas
editoras convencionais encontram agora o seu espaço.
Antes discriminados, hoje têm até uma sociedade oficial:
a Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL).
'Acredito que os livros virtuais sejam a melhor maneira
do escritor, autor ou poeta se tornarem conhecidos não
apenas em sua cidade, mas no Brasil e no mundo', diz uma
das fundadoras da entidade, Maria Inês Simões, que
também é professora, poeta, webmaster e designer.
Para ela, as editoras virtuais nada mais são do que
uma maneira de democratizar a cultura. 'Há ótimos
escritores que pelo simples fato de serem novatos
encontram muitas dificuldades em publicar um livro.
Quando conseguem, em grade parte das vezes, ficam
abandonados nas prateleiras de livrarias e bibliotecas.
Na Internet, eles sentem o retorno do público e de
outros profissionais. Não são raros os casos em que
escritores recebem e-mails de colegas parabenizando
pelas publicações', garante. Mas não são apenas os
autores que se beneficiam com os aparatos e endereços
tecnológicos. 'Os livros virtuais se transformaram em um
grande incentivo a todos que acessam a Internet, devido
às suas inúmeras possibilidades de leituras. A imagem, o
som, a formatação de cores levam o leitor a despertar
outros sentidos', avalia. Fundada em 2001, a
Academia, com sede em Bauru, interior de São Paulo,
conta atualmente com 407 membros. 'Tem mais um monte de
gente querendo fazer parte dessa turma', vibra. Os
interessados devem entrar em contato com a professora
através do e-mail abvl@abvl.com.br. Vale lembrar que o
autor deve enviar o endereço eletrônico onde as obras
virtuais estão publicadas. O entusiasmo pela
modalidade é tanto que Maria Inês e os demais associados
já decretaram o nascimento de uma nova época literária.
Depois do modernismo e do pós-modernismo, eles
anunciaram a chegada do 'Virtualismo'. 'É o movimento
que surgiu para mostrar os trabalhos na era virtual.
Além das palavras, utiliza-se do som, da imagem e demais
recursos tecnológicos para construir a literatura e
fazer façanhas no computador.' E quanto àquela
história de que no futuro o livro virtual acabará com o
livro de papel? 'Essa história não existe, muito pelo
contrário. Muitas vezes, o que começou no virtual acaba
sendo impresso', diz, citando como exemplo a obra
'Primeira Antologia Poética AVBL', que após ganhar fama
e fazer sucesso nas páginas da Web transformou-se em
obra física. Segundo Maria Inês, em pouco tempo, 2.800
exemplares da publicação, que reuniu 118 poetas, foram
enviados para 45 cidades brasileiras.
Obras são
gratuitas em algumas editoras
Na era dos livros
virtuais, é possível ler obras inteiras através da Web e
ainda guardá-las no seu computador como se fosse a
gaveta do criado mudo ao lado da cama ou a estante da
sala. Uma das pioneiras no Brasil, a E-Book Net conta
com 234 obras publicadas de 103 autores diferentes. 'E a
cada dia este número cresce mais', festeja a poeta e
editora Maria Inês Simões. O diferencial do endereço
eletrônico, segundo ela, está no fato de os livros
virtuais estarem disponíveis gratuitamente para
download. Mesmo com as discussões em torno da
questão dos direitos autorais em plena ebulição, os
escritores da E-Book Net parecem não se preocupar muito
com isso. 'Já oferecemos essa possibilidade aos nossos
autores, porém a procura por efetuar o registro das
obras no EDA (Escritório de Direitos Autorais) foi muito
pequena. Na verdade, acreditamos que os autores desta
nova geração não se apegam a esses detalhes, a menos que
a burocracia quanto aos registros fosse menor. Numa
época em que o imediatismo impera, nem sempre o autor,
escritor e poeta virtual têm tempo para estar elaborando
os procedimentos de registros, os quais ainda continuam
sendo iguais desde décadas passadas', reclama. Além
do fim da longa batalha por um espaço no mercado
editoral convencional, o preço é apontado por Inês como
outro atrativo para quem deseja ver suas publicações nas
páginas da Internet. 'Para publicar um livro de papel o
autor gasta, em média, de R$ 4 mil a R$ 6 mil. Já uma
obra editada por nós e publicada na Web seguramente não
custa mais que R$ 150,00.'
Vendas em alta na
IEditora
Inaugurada em março de 2000, durante a
Bienal do Livro de São Paulo, a IEditora é outra empresa
que vem investindo no mercado eletrônico de livros.
Hoje, o catálogo comporta mais de mil títulos que vão
desde a história à informática, dos contos ao
entretenimento. 'Basta o internauta visitar o site,
especificar sua área de interesse pela estante de
assuntos, efetuar o pagamento por meio de cartão de
crédito ou boleto bancário e fazer o download no
computador', explica o editor da IEditora, Ednei
Procópio. Segundo ele, uma obra sai para o leitor de 30%
a 50% mais barata na versão eletrônica em comparação com
a de papel. Para manter a 'integridade' do livro e
garantir o repasse dos direitos autorais para os
escritores, Procópio diz que após a confirmação da
compra o leitor recebe uma senha para destravar a obra.
Os principais clientes, segundo ele, ainda são os
profissionais liberais. Aos escritores virtuais de
plantão, o editor avisa: 'O escritor interessado deve
mandar o material para a editora (ednei@edicoes.com.br),
que num prazo de no máximo três dias aprovará (ou não) a
publicação do livro. Em caso de resposta positiva, o
livro é revisado e editorado. Em um mês, está pronto
para o lançamento.' O preço cobrado é a partir de R$
500,00. Quanto ao mercado, a expectativa é de
melhora. 'As vendas vêm crescendo, mas ainda são
insipientes. Prestamos um serviço alternativo para
ajudar a divulgar o autor e sua obra, vetados pelas
editoras convencionais. Mas num futuro próximo, com a
democratização do uso da Internet, o serviço mostrará
que veio para ficar', aposta.