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Brasília,
sábado, 29 de janeiro de 2005
LITERATURA
Rede de alternativas
Escritores que não se enquadram nas exigências impostas pelas editoras convencionais
encontram na internet o veículo ideal para divulgar
seus trabalhos
Naiobe Quelem
Da equipe do Correio
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Antônio Siqueira/CB |
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Das vendas de mão em mão em bares e restaurantes à popularidade entre internautas de todo o planeta, o escritor Gustavo Dourado aprova a iniciativa: “Hoje estou no mundo” |
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Paralelamente às restrições impostas pelas editoras
convencionais, autores até então desconhecidos no mundo das letras têm
investido cada vez mais no mundo virtual para divulgar seus trabalhos. Baixos
custos de editoração, velocidade na publicação e na divulgação, bem como a
viabilização de obras que não se enquadram no conceito de atratividade
comercial das editoras tradicionais, são algumas das vantagens que as suas
correspondentes virtuais.
Até 1997, o professor de literatura e escritor Gustavo Dourado, 44 anos, tinha
o trabalho restrito a uma pequena parcela do público brasiliense. Todos os nove
livros publicados até então foram independentes e distribuídos com dificuldade.
“Vendia os exemplares nos lançamentos e nos bares e restaurantes, de mesa em
mesa”, lembra Gustavo. Cansado de ter os escritos recusados, há quase oito anos
ele só publica o material na internet. Começou
publicando artigos, contos, crônicas e poesias em sites
do Brasil e do exterior.
Há cinco anos, Gustavo lançou seu primeiro livro pelo Ebook
Net (www.ebooknet.com.br), editora virtual com acesso para download
gratuito, e não se arrepende. Phalábora – antologia
poética com ilustrações do artista plástico Toninho de Souza – é o mais lido do
site. Só em dezembro, recebeu 3.549 visitas – média
de 114 acessos diários. Recentemente, o seu site (www.gustavodourado.com.br)
e a antologia (www.phalabora.ta-na.net)
foram incluídos no World Poetry
Day e Unesco Portal Libraries.
O portal de poesias da Unesco destaca os principais autores contemporâneos de
cada país e é hoje uma das mais importantes referências na área cultural em
todo o mundo. O site do escritor também está entre os
primeiros no PageRank do Google Directory, que mede a
qualidade e o nível de leitura dos sites. No último
dia 28, por exemplo, Gustavo ocupava o 4º lugar na categoria Escrita Online e a 8ª posição na categoria Autores. “Isso tudo
aconteceu depois de publicar no Ebook Net”, conta.
No Ebook Net, o autor paga para
publicar o livro digital e ganha uma biblioteca virtual própria onde são
hospedadas as obras. “Não há restrição de gêneros, mas 80% dos títulos são
poéticos”, observa a criadora do site, a poetisa
Maria Inês Simões . Os preços e a ampla possibilidade
de divulgação dos trabalhos por meio da rede são os maiores atrativos. Um
livro, que custaria cerca de R$ 5 mil se impresso, no site, sai por cerca de R$ 150. Não é preciso pagar
hospedagem. Já para os leitores, o custo é zero. Como as obras podem ser
baixadas gratuitamente, o autores não recebem os
direitos autorais. “A única coisa que não ganho é dinheiro, mas isso é um
investimento. As editoras tradicionais são muito fechadas. Antes era conhecido
apenas em Brasília. Hoje estou no mundo”, avalia
Gustavo, que se prepara para lançar na Internet Cordéli@,
antologia de cordel com xilogravuras eletrônicas. Desde 2003, o Ebook Net publicou 234 títulos de 103 autores.
O Ebook Net é um desmembramento da Academia Virtual
Brasileira de Letras (www.avbl.com.br).
Criada em 2001, também por Maria Inês, a Academia tem 436 membros. O site da AVBL – que remete ao Ebook
Net – também é bastante conhecido entre os internautas.
No portal (www.marketleap.com/publinkpop),
que mede o índice de popularidade na rede, a página da AVBL soma 7.740, pontos
contra 10.126 pontos da Academia Brasileira de Letras (ABL), que já tem cem
anos de existência.
Mercado
A ampla capacidade de penetração dos e-books (livros
virtuais, eletrônicos ou digitalizados) entre os internautas,
no entanto, ainda não representa uma parcela significativa no mercado editorial
brasileiro. Na Papel & Virtual (www.papelvirtual.com.br) – a primeira editora virtual do país,
que opera desde 1998 e possibilita aos leitores escolher entre a versão
impressa e eletrônica –, os e-books representam
apenas 5% das vendas. “Mas, de qualquer maneira, a forma digital ajuda na divulgação.
Além disso, curiosamente, a maioria das pessoas compra as duas versões, a
impressa e a virtual. Isso acontece quando o leitor prefere o livro impresso,
mas precisa com urgência de um exemplar”, explica o editor do site, Thomaz Adour.
Um exemplo da força de divulgação dos e-books e do
peso dos impressos sob o digital é que várias editoras fizeram o caminho
inverso: nasceram completamente virtuais e hoje já oferecem também a opção
impressa. Entre elas estão a Ei Editora Inteligente,
antiga Ieditora (www.ieditora.com.br), e a Usina de Letras (www.usinadeletras.com.br).
A EI já faz isso há três anos. Já a Usina de Letras começou há três meses.
Nessa última, o serviço de impressão é somado às facilidades cibernéticas. Há,
por exemplo, a opção de fazer o orçamento online.
Nas editoras virtuais que vendem os livros, os autores recebem os direitos
autorais. Essa é uma outra vantagem da publicação digital. “Enquanto as
editoras tradicionais pagam em média 10% do valor de capa, pagamos 20% para as
edições impressas e 40% para as digitais”, diz Thomaz. A diferença na
porcentagem existe para igualar os valores, já que no Papel & Virtual, por
exemplo, os títulos na forma digital custam em média metade do valor do
impresso.
Há ainda outras vantagens dos e-books. O conteúdo do
livro, por exemplo, pode ser rapidamente revisado e alterado. Os contratos
entre autores e editoras virtuais costumam ser mais brandos
ou nem existem. Na maioria delas, os autores podem publicar as obras
virtualmente e, quando quiserem, mudar para uma editora convencional sem nenhum
ônus. Os e-books também funcionam como uma espécie de
vitrine para as grandes editoras. “Mas também acontece de algumas editoras
encaminharem o autor para o site para testar o
potencial de aceitação de obra de um ator. Se vender no virtual, eles
publicam”, acrescenta Thomaz.
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Thomaz Adour, editor do site Papel & Virtual